Amor sem beijinho, namoro sem amasso. A música que faz parte do repertório secular ganha forma e o namoro sem beijo e sem toque, mas cheio de galanteios substitui o tão famoso “ficar” entre os jovens.
A corte vem ganhando adeptos quando um conceito de um namoro mais respeitoso não é mais acatado pela maioria dos jovens, sejam eles crentes ou não. O número daqueles que se casam por causa da gravidez é cada vez mais alto. O motivo? São vários. Pesquisas mostram que os brasileiros ocupam o segundo lugar no mundo entre os que perdem a virgindade mais cedo, com a idade média de 17,4 anos. Em primeiro lugar está a Áustria com 17,3. A pesquisa intitulada por The Face of Global Sex 2007 - First sex: an opportunity of a lifetime (Primeira relação sexual: uma oportunidade para toda a vida), foi realizada por um fabricante de preservativos, com 26 mil entrevistados em 26 países. Outro motivo é a pressão entre os próprios jovens, já que a maioria denuncia ter vergonha de assumir a sua virgindade, com receio de serem os únicos virgens do grupo. Há também falta de instrução, os pais têm cada vez menos tempo para se dedicarem aos filhos, seja para instruí-los na vida espiritual, emocional ou sexual. A igreja também leva parte dessa culpa, pois perdeu o controle sobre seus jovens. É nesse caos do século 21 que algumas comunidades estão se reerguendo para resgatar os antigos caminhos indicados na Bíblia Sagrada. Em meio a essa desordem moral, qual atitude os líderes deveriam tomar? E qual deveria ser o posicionamento dos jovens em relação ao namoro? Heber Brito e sua esposa Silvia, da Comunidade Bíblica Esperança, de Santo André, SP, encontraram uma solução após a leitura do livro “Corte X Namoro” escrito pelo Pr. Naor, da Igreja Videira, de Goiânia. “Este assunto nos impactou tanto que chegamos a nos lamentar de não termos conhecido essa visão bem antes, já na época do nosso namoro em 1978. Foi como uma chama que acendeu dentro de nossos corações, e sentimos que o Senhor estava querendo nos falar mais sobre este assunto. Então implantamos a visão da corte desde 2008”, diz Heber, que é pastor da comunidade e Bacharel em Teologia, pela Faculdade Teológica de São Paulo.
Príncipes e Princesas – A visão da Corte na Comunidade Bíblica tem fundamento no próprio significado da palavra, ou seja, eles vivem na corte do reino do Rei Jesus. “A palavra corte se pronuncia com a sílaba tônica “cor” como em corpo, tem o significado da residência do rei, a casa do rei. Corte envolve todas as pessoas que vivem neste lugar, como príncipes e princesas. A palavra também tem o significado de galanteio, tratar com lisonja, com atenção amorosa”, explica Heber. O lema dessa corte é “santidade” entre os jovens. Apesar de não se tratar de uma novidade, falar do assunto pode parecer antiquado. Essa pode ser uma sensação típica quando se perde a noção dos valores. “O relacionamento de santidade entre um homem e uma mulher, na verdade é uma “vereda antiga”, não no sentido de ultrapassado, mas um ensinamento que nasceu na eternidade, em Deus, e que foi transmitido ao homem como uma cerca de proteção para a família, que é o grande alvo de Deus”, diz o pastor. Segundo ele, o sexo restrito apenas ao casamento é um mecanismo de defesa que o Senhor criou para estabelecer a estrutura familiar em sua forma original, pois é por meio dos laços familiares que Deus revela a sua Palavra na terra. “A visão da ‘corte’ preserva os jovens em vários aspectos: fisicamente - das doenças sexualmente transmissíveis, da gravidez prematura; emocionalmente - da decadência moral, da banalização do sexo, dos sentimentos de rejeição, abandono e vulgaridade; e espiritualmente - da condenação do diabo”, afirma o teólogo. Mas o trato com os príncipes e as princesas do antigo reino, que estava contaminado com as práticas seculares não é tarefa fácil, já que nem todos querem aderir ao novo sistema. “Conversamos em primeiro lugar com nosso filho mais novo, o Gabriel, que a princípio ficou irritado com a possibilidade da ‘corte’ na Comunidade, e foi o primeiro a dizer: ‘Estou fora’. Depois falamos com os líderes e enfim com os jovens. Lembramos o rosto assustado e confuso deles quando falamos do assunto. Uns com uma cara de ‘ué’! Outros acenando com a cabeça que não! Outros com cara de espanto! E alguns muito bravos!”, lembra o casal ao tentar apresentar a nova idéia. “Ainda estamos implantando a visão na igreja. O processo é lento, e sentimos que ainda não alcançamos o resultado que esperávamos. Estamos trabalhando com os pais dos adolescentes, que é a faixa etária que mais se opõe à ‘corte’, porque estes meninos e meninas embora bem jovens, já foram conquistados pela mente mundana do ‘ficar’, beijar e até mesmo transar”, comenta Heber.
A nova visão é interessante, embora um tanto radical na opinião da psicoterapeuta e sexóloga Dulce Barros, 50 anos. “Essa é uma atitude que vai depender muito da crença de cada jovem, já que a nossa cultura está vinculada a valores mais abertos. Essa repressão já foi vista em outras épocas e não deu certo”, explica a sexóloga. Segundo ela, essa mudança acarretaria na falta de conhecimento um do outro. “Isso pode trazer conseqüências desagradáveis para o futuro do casal ao se deparar com problemas sexuais, como a situação de impotência, por exemplo”, afirma. Na opinião dela a relação necessita de um alicerce. “Eu concordo que é necessário resgatar alguns valores, os jovens precisam de mais conversa, entender o sentimento um do outro, não se trata só de satisfações fisiológicas. Por isso, eu acho que a nova visão não deveria ser tão radical, mas que encontrassem um meio termo”, pondera.
Cortejados – Seis casais da Comunidade Bíblica Esperança optaram pela corte, entre eles um casal de viúvos. As situações são variadas, mas a iniciativa é sempre do próprio casal. “João Jacaúna e Salete, ambos viúvos, procuraram os seus líderes de células para falar dos seus sentimentos, e logo após um período de oração e acompanhamento desses líderes, oficializaram a corte num culto. A alegria e a festa que a igreja fez naquela noite foi contagiante”, lembra Silvia. “Outro casal de jovens, Gustavo e Bianca, migraram do namoro para a corte, depois de um bom tempo em um relacionamento conforme os padrões do mundo. Hoje, eles são líderes em treinamento na rede de jovens Peniel”, comemora o pastor, que mesmo tendo um número ainda pequeno de adeptos ao novo padrão, conseguiu a simpatia do próprio filho, que no início negou a proposta. “O Gabriel também está fazendo a corte com a Gabriele há três meses, são líderes de célula da rede Peniel e têm projeto de casamento para o início de 2010”, diz o pai.
O sonho do pastor é possível, está se encaminhando através de alguns casais e em partes, até já se realizou. “Já tivemos um casamento em 17 de janeiro, de Caio e Ana Paula, após um período de 18 meses fazendo corte. O relacionamento teve início depois de uma forte confirmação nos corações do casal, passou por um processo de adequação, depois um rompimento e no final de 2008 procuraram os seus líderes para definitivamente concluírem a corte com uma celebração de noivado. Os pais, pastores e discipuladores participaram de todo o processo, ouvindo, orientando e orando até que eles chegassem ao casamento”, comenta Heber. O objetivo do novo padrão é que os jovens tenham uma vida de santidade, e se mantenham puros até o casamento, sem beijo e sem toques, mantendo um relacionamento de amizade, carinho e respeito. “No caso de Caio e Ana Paula tenho certeza de que isso aconteceu, pelo próprio testemunho deles, dos pais e dos discipuladores. A apreensão do casal era grande, pois nenhum dos dois havia tido alguma experiência sexual anterior, ao que recomendei um livro de Jaime Kemp O Ato Conjugal, que para eles foi de grande valia, pois o assunto principal desse livro é a primeira noite, além de outros assuntos”, diz o pastor. Heber e Silvia sabem que não é fácil para os jovens reconhecerem que é preciso mudar a situação atual, principalmente porque o conceito bíblico de virgindade como santidade a Deus, tem sido interpretado como uma simples questão cultural. O casal comenta que a liberdade sexual está tão avançada que é vista como uma evolução natural da raça humana pela maioria das pessoas e que os jovens pensam estar vencendo certos ‘tabus’, quando na verdade, estão perdendo a noção dos valores determinados pelo Criador. “Recentemente, ouvi uma conversa entre adolescentes, na rua, e eles travavam uma discussão sobre qual seria a opção sexual entre eles. Biblicamente falando, não existe essa opção, porque Deus fez homem e mulher, mas na mentalidade do homem moderno, ele decide o que bem quiser sobre todas as coisas, inclusive se ele quer ser ‘homem’ ou ‘mulher’. E hoje em dia, é até perigoso expressar a sua opinião sobre o assunto, correndo o risco de ser processado por discriminação”, alerta o teólogo. O sexo, além de banalizado, perdeu seu sentido primário, seus critérios e suas regras, principalmente depois que ganhou a mídia, perdendo também o bom senso. O mundo nos mostra que o sexo perdeu completamente a ligação com o afetivo, tomando um rumo que leva as pessoas a pensar somente em prazer, de uma forma egoísta. Mas, segundo o pastor, a nova visão da ‘corte’ mostra que há como resgatar a versão original do amor. “A Bíblia fala de sexo no casamento e ponto. Seja qual for o ritual que se praticava em seu contexto, seja no Novo ou Antigo Testamento, o sexo sempre estava relacionado ao casamento, e no meu entendimento a pureza sexual como um ensinamento que começou na eternidade, no coração de Deus, é muito mais que uma regra que Ele impôs ao homem, para mim, vai além da cerca de proteção à família”.


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